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Direção e coreografia de Saulo Uchôa

 

 

O espetáculo

Criado a partir da literatura de cordel e das feiras livres.

 

Duração: 45 minutos

 

 

Texto do espetáculo (criado e interpretado por Jane Fernades)

Tenho lembranças da feira da minha terra. Lembranças de quando era menina e ia pra feira com a  minha mãe, eu ia muito na feira. Lembranças do beiju de coco de D. Maria, da bolacha de goma de Seu Augusto, do cheiro de peixe do mercado. Os pescadores traziam aquele monte de peixe fresquinho e jogava ali mesmo, na calçada, depois levavam para dentro do Trapiche para começar a venda. Em frente ao mercado passava o riacho que banhava a cidade e tinha uns moleques que ficavam pulando dentro d'água, numa alegria de dar gosto. O mercado de farinha... Seu Antônio sempre gritando que a farinha dele era a melhor “Olha aqui D. Maria, farinha da melhor qualidade. Só tem aqui, viu!” As cordas de caranguejo. Aquele caranguejo cheio de lama, que a gente gastava um montão de água pra lavar e depois de cozido, comia com salada de tomate e cebola. Tinha o meu primo Beto, que me trazia suco de laranja com limão. É, ele fazia aquele suco com bastante laranja, espremia um limão dentro e depois adoçava que ficava uma maravilha. E a gente tomava todo sábado, quando chegávamos da feira, “o suco de laranja com limão do meu primo Beto.” Tinha também o salão de sinuca. Ficava aquela porção de homens, cheirando a charuto, naquela sala cheia de fumaça –“minha vez, Toinho – e eu ouvia o som da bola. Caçapa. As bonecas de pano! As bonecas de pano lembram minha avó, que vivia comprando aquelas bruxinhas para mim e eu sempre afogava todas no tanque de água, lá no quintal, pra ver como é que elas ficavam, encharcadas.

 

A feira da minha terra... Aparecia por lá uma gente estranha, que todo santo sábado, o dia da feira, entrava pela cidade. Mulheres com roupas rodadas, de pés descalços, cheias de anéis, pulseiras e brincos. Com crianças à tira-colo, pedindo coisas, comprando outras, às vezes pegando sem que ninguém visse. Vi muitas vezes conversarem com as pessoas segurando as mãos, umas davam ouvidos, outras não. Minha mãe me dizia: “São ciganos, não chegue perto que eles roubam crianças!” Eram ciganos. Figuras que também povoaram a feira da minha terra. Tinha o moço dos livrinhos. Ele pendurava num cordão, vários livros de estórias interessantes e fantasiosas, que às vezes se pareciam com a vida real. Estórias de pescadores que falavam com peixes enormes, de gente que virava bicho, de heróis valentes que sempre venciam as batalhas, de coincidências e ironias da vida. O vendedor ficava lendo algumas delas num microfone, até que se formava uma roda de gente, para ouvir as estórias do moço dos livrinhos. Eu também li muitas delas pra gurizada que morava ali perto, sentada no terreiro da casa da minha avó. Eram livros pequenos, assim, e não tinham luxo, não. Mas aquelas personagens moravam na minha casa e andavam comigo na rua. Muita gente leu aquelas estórias. E só muito tempo depois é que vim conhecer os tais livros como Literatura de Cordel.

 

 

Ficha técnica

Direção, coreografia e iIluminação: Saulo Uchôa

Direção artística: Marcelo Sena

Elenco (primeira montagem): Adriana, Celi, Ewertton Nunes, Diorge Santos, Jane Fernandes, Marcelo Sena e Saulo Uchôa

Técnico de luz: Fábio Rodrigues (Babu)

 

 

Anexos

. release

. imagens em alta resolução

. trecho da trilha sonora

. clipping

 

 

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